Vesúvio: o dia em que fui parar no vulcão mais famoso da Itália

Foi a primeira vez que eu toquei as nuvens.

Acabara de cruzar um mercado vintage que se estendia por uma rua inteira. Bandeiras da Itália coloriam o céu em vermelho e verde. Varais de sapatos, lençóis e tapetes enfeitavam as fachadas das casas-lojas. Na entrada dos cortiços, araras explodindo de camisas floridas dividiam atenção com santuários deteriorados. Paralelepípedos e artigos de decoração disputavam o título de mais antigo por ali. Na comuna de Herculano, a vida era um grande brechó.

No final da rua enladeirada eu tinha as pernas bambas, suor escorrendo pelo rosto e alguns achados na mochila. Já era tarde e os comerciantes começavam a recolher as mercadorias. Numa tentativa de fazer uma última venda, um senhor me convidou a entrar na sua loja. Arriscou algumas frases em português e espanhol. Fruto de romances internacionais passados, que não duraram mais que três ou quatro lições.

Vesúvio, Herculano, Itália.
Vesúvio, o vulcão que destruiu Pompéia e Herculano. Nápoles, Itália.

Então ouvi falar do Vesúvio pela primeira vez. O vulcão conhecido por destruir as cidades romanas de Pompeia e Herculano, em 79 d.C. O homem falava da cratera com um ar de orgulho por viver numa área de perigo, apesar da última erupção ter ocorrido há mais de 70 anos. Terminou a conversa apontando um caminho que, segundo ele, em quarenta minutos me levaria ao local.

Animado com a ideia de ter ido visitar um mercado vintage e de repente parar num vulcão, segui caminho. Minutos depois, o trecho urbano de Herculano já estava para trás. Sentado à sombra de uma árvore, um trabalhador de uma marmoraria esperava o ônibus de volta para casa. Trocamos algumas palavras. Ele avisou que o caminho era longo. Eu, habituado a conhecer as cidades a pé, me convenci ser exagero. Que quarenta minutos de caminhada não era nada. Na despedida ganhei algumas frutas.

Mais à frente, uma estrada se dobrava entre as montanhas. Cortei caminho pela floresta para ganhar tempo. Subia, fotografava a vista que se tinha das cidades de Herculano e Nápoles e chupava laranja. Já se passara uma hora. Era óbvio que o vendedor me falava de um percurso de carro. 

Entendi que era a hora de pôr em prática as habilidades adquiridas há pouco, na região dos Alpes Franceses, onde pela falta de transporte público, só foi possível chegar de carona. Sorrir com os olhos. E continuar sorrindo mesmo se ninguém parar. Eu tinha que conseguir. Já estava convencido de que não chegaria a tempo se continuasse andando. Minutos depois, um casal pararia no acostamento.

Eram da Letônia. Conversamos sobre tudo: nossas culturas, nossas línguas e as nossas viagens.  Nos tornamos amigos de vulcão. A subida demorou mais uns quinze minutos de carro até chegar a uma área que o trajeto deveria ser feito a pé. 

Vesúvio, Nápoles, Itália.

Àquela altura a paisagem já tinha mudado completamente. Não havia flores, nem plantas no chão. O vento corria livre entre os galhos secos das árvores. Tudo ao redor era cinza, frio e quase fantasmagórico. A primavera estava atrasada, vinha a pé.

Finalmente alcançamos o topo. A vista do interior da cratera totalmente comprometida. Tão diferente dos cartões postais à venda nas lojinhas de souvenir. Imagens tão falsas quanto as pedras vulcânicas coloridas oferecidas pelos camelôs. Na boca, o gosto cítrico do licor que experimentamos na subida, ainda me dava a impressão que tinha tomado desinfetante de limão. Brinquei com o casal que talvez estivéssemos num ritual de purificação.

Uma parte de mim estava desapontado pelas condições do tempo. A outra era só gratidão. Pelas pessoas. Pelo mercado vintage. Pelas laranjas. Pelo branco que me cercava. Pela carona. Por toda a aleatoriedade que me levou até ali. Pensava naquilo tudo com tanta satisfação que não conseguia conter o sorriso. Respirava fundo. Os pulmões inflados de nuvem. Soltava o ar. Um dia, quem sabe, choverá felicidade.

Vesuvio, Napoli, Italia

Vesuvio, Napoli, Italia

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s